Sobre a História da França Equinocial e a Exposição

O Maranhão comemorou no dia 8 de setembro de 2012 quatro séculos de estabelecimento de uma nova França no Brasil, um empolgante e fascinante capítulo, escrito por mãos gaulesas, que nos legaram as primeiras marcas e balizas deste território. O Brasil ibérico terminava no leste, no Rio Grande do Norte, mais precisamente em Natal, com pouco mais de trezentos habitantes. De lá até o Pará e as Guianas era uma terra vaga e habitada apenas por nativos e nichos de estrangeiros, com predominância dos franceses, amigos dos tupinambás desde muitas décadas. A Upaon Açu dos tupinambás era também a morada de centenas de franceses, que aqui comercializavam e viviam em harmonia com os aliados nativos. Por conta disto, um dois maiores historiadores brasileiros do século XIX, o maranhense João Francisco Lisboa, em uma de suas principais obras escritas àquela época, o Jornal do Tímon, falou que “os franceses não invadiram o Maranhão, pois encontraram uma terra completamente vaga, sem ocupação…”, e finaliza que por conta de tal omissão “os donatários régios estavam incorrendo nas penas de comisso”.

Abandonada pelos ibéricos, a região era ocupada pelos franceses que aqui comercializavam há décadas. Desde 1524 que a presença gaulesa é percebida no Maranhão. Quando a esquadra portuguesa de Aires da Cunha e João de Barros naufragou nos rochedos do Parcel de Manuel Luís em 1536, alguns dos principais da expedição, que conseguiram sobreviver aportando no litoral maranhense, retornaram à Europa de carona em navios franceses que se abasteciam na Upaon Açu. Outros náufragos da mesma expedição teriam criado uma povoação que ficou conhecida como Nazaré, estabelecida no litoral, em lugar incerto. Por volta de 1555 Teixeira de Melo também tentou se estabelecer nestas plagas, mas também foi tragado pelas águas traiçoeiras do Golfão e do Canal do Boqueirão. Os gauleses, por outro lado, eram conhecedores da costa setentrional. Mas foi um infortúnio acontecido próximo à Ilha Grande (Upaon Açu) que permitiu a fixação destes no território. Foi em 1594, quando uma esquadra do capitão francês Jacques Riffault tombou no canal, que teve início a ocupação francesa no território de forma mais efetiva. Neste período já mantinham duas fortalezas “na boca de duas Ilhas”. Uma seria o forte do Sardinha – le fort Sardine – que foi alterado para São Francisco, que deu nome ao bairro. O forte dava proteção à Miganville – atual Vinhais Velho – misto de aldeia indígena e povoação francesa. Foi do porto de Jeviré, na Ponta d’Areia, sob a proteção dos canhões do sítio Sardinha, que Des Vaux e Adolphe de Montville partiram para a ocupação da serra da Ibiapaba no Ceará. Foi ali que nos fins dos anos mil e quinhentos estabeleceram parceria com um chefe chamado Irapuã, que quer dizer Mel Redondo, e começaram as balizas para a atual cidade de Viçosa. Foram eles que nomearam as duas principais ruas da atual cidade: rua Paris e Rua Pedra Lipse, esta dá acesso ao ponto principal da cidade, a Igreja do Céu. Foram expulsos em 1603 por Pero Coelho e retornaram ao Maranhão e ao Rio Grande do Norte, onde mantinham fortes laços com a população autóctone. Pouco tempo depois, Charles d’Esternou des Vaux viaja à França e procura Daniel de la Touche para juntos, com apoio da coroa francesa, implantarem uma nova França no Brasil.

Coube ao general francês Daniel de La Touche de la Ravardière, com o suporte dos também generais François de Razilly, senhor de Oiseaumelles, primo do cardeal de Richelieu, e Nicolas d’Harlay, senhor de Sancy, conselheiro do rei e um dos homens mais ricos da França, aqui aportado em 1612 com centenas de outros expedicionários, o pioneirismo do desbravamento oficial da porção norte do território brasileiro. Foi ele quem alterou o espaço físico natural, pacificou as tribos rivais, praticamente acabando com o canibalismo entre os selvagens. O sucesso e progresso da colônia tinham a marca de dois trouchements (tradutores) aliados de La Ravardière, que aqui residiam entre os tupinambás: David Migan, considerado o “chefe dos negros” e Charles des Vaux.  Foi sob a égide de La Touche que foi criado em São Luís o primeiro conjunto de leis das américas, que garantia a integridade da população nativa e disciplinava a convivência na colônia, estabeleceu a primeira organização de estado, as primeiras construções – inclusive em pedra, as primeiras casas, os primeiros fortes e todo um processo colonizatório e civilizatório nesta porção norte do Brasil.

Vivia-se em paz no Maranhão, vez que brasileiros e estrangeiros estavam em um mesmo lado e com o mesmo propósito de colonizar e construir um novo mundo onde vigorava o império da harmonia e da paz. Tal estado de equilíbrio contribuiu para sábias manifestações, como a do maior poeta brasileiro, o maranhense Antonio Gonçalves Dias: “… a expulsão dos franceses levou consigo muitas esperanças”.

A França Equinocial foi, temporalmente, efêmera, porém, eternizada no seio e no espírito daqueles que cultivam belos e harmônicos sonhos. Nasceu de um laborioso empreendimento partilhado por católicos e huguenotes, parceria que levou o escritor e conservador da Biblioteca da Santa Genoveva, Ferdinand Denis (1798 – 1890), a dizer que em todo o século XVII não se conheceu “transação outra entre católicos e protestantes mais leal e desinteressada”. Foi Denis quem publicou em 1864, em francês, as obras dos capuchinhos franceses que estiveram no Maranhão em 1612: História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, de Claude Abbeville, e Continuação das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão nos anos de 1613 e 1614, que recebeu o nome de Viagem ao Norte do Brasil feita em 1613 e 1614. Em Paris as obras foram cerceadas antes da publicação. A primeira foi incendiada ainda na gráfica sendo salvos dois exemplares por “meio sutis” a partir de iniciativa particular de François de Razilly. O segundo teve muitas páginas subtraídas. O mesmo aconteceu com a obra do holandês Gaspar Barleu, que narrou com detalhes o período do domínio holandês no Brasil.

A esquadra francesa era formada pelos navios Charlote, Regente e Santana. Partiu do porto de Houle em Cancale na Bretanha no dia 19 de março de 1612. Logo após a partida uma grande tempestade por pouco não põe fim à missão. A tripulação foi forçada a lançar ao mar alguns móveis, canhões e uma sorte de bens para não ver as embarcações afundarem. A força da natureza forçou os navios a atracarem em locais diferentes da costa da Inglaterra, onde se reencontraram dias depois e retomaram a viagem. Depois da difícil travessia do Atlântico a esquadra aportou na Ilha Pequena (Upaon Mirim), que logo batizaram de Ilha de Sant’Ana. Nesta ilha encontraram outras embarcações da França, que esperavam carregamento. De lá, Charles Des Vaux fez uma breve embaixada para sondar como estava a Ilha Grande. Desembarcaram no dia 8 de agosto no Porto de Jeviré, na Ponta d’Areia, local onde encontraram grande número de franceses, que aqui residiam ou comercializavam.

Daniel de la Touche de La Ravardière, fidalgo nascido no Poitou, descobridor das Guianas (1604) e fundador de São Luís e da França Equinocial (1612), logo tratou de desbravar a região. Após a conquista da Ilha de São Luís, enviou emissários a diversos pontos do Maranhão, que subiram os principais rios para manter contato com as nações indígenas que habitavam próximo a esses rios. Ele mesmo se apresentou para o desafio da conquista da Amazônia, ocasião em que reuniu cerca de três mil tupinambás a partir dos caetés, que habitavam o rio do mesmo nome, atual município de Bragança do Pará. Neste local ele permaneceu mais de um mês. A estada é o marco fundacional do município de Bragança. Em seguida partiu para o lugar dos caamutás (caa – mata, árvore; mutá – cama, casa. Que significa aqueles que moram sobre as árvores), atual Cametá. A viagem foi interrompida com a ameaça portuguesa, ocasião em que La Touche retornou ao forte de São Luís e tratou de melhorar as defesas. No Pará deixou seus imediatos De Bault e De Blanjartière, que permaneceram vários anos no Pará. Meses depois, acontecia a Batalha de Guaxenduba, quando os franceses saíram derrotados e tiveram que assinar um ano depois a rendição e entrega da colônia ditados “em termos arrogantes” pelo general Alexandre de Moura. No intervalo entre a batalha e a entrega das chaves da Fortaleza Saint-Louis (atual Praça Pedro II) a conviv~encia com os portugueses foi pacífica e de entendimento.

 

O TURISMO AVALIZA A HISTÓRIA DOS FRANCESES EM SÃO LUÍS. E A EXPOSIÇÃO França Equinocial TAMBÉM.

Não bastasse a eternização da história gaulesa no imaginário coletivo, o consagrado historiador e escritor Mário Martins Meireles, observador da realidade maranhense, à vista da maior demanda de visitantes franceses em São Luís e no estado, concluiu que a “maior presença de franceses em São Luís é a prova material de que a França Equinocial nunca acabou”. Fato facilmente comprovado em São Luís por qualquer observador leigo, mas que foi conferido por uma pesquisa realizada entre turistas estrangeiros que visitam o Maranhão. Parte considerada dos entrevistados, mesmo sem nenhuma política pública direcionada a este fluxo e sem nenhuma racionalização da história deles neste torrão, respondeu que visita São Luís para conhecer a “Única capital brasileira fundada por franceses”. Some-se o feed-back do consultor e então secretário de turismo de Saint-Malo (cidade fortificada de sessenta mil habitantes que recebe quatro milhões de visitantes por ano), Jean-Claude Weiss, que não cansava de dizer “Vocês dormem sobre um tesouro e não estão sabendo”. Estas e muitas outras informações, observações e impressões, ajudam a descortinar a beleza de um país com bases mais sustentáveis que existiu nestas plagas e que permanece vivo no coração das pessoas mais atentas quanto à presença estrangeira no Brasil.

É a França Equinocial, nosso primeiro capítulo, que o Maranhão reportou neste oito de setembro, e nos 60 dias da exposição – 06 de setembro a 5 de novembro de 2013. Nossos quase quinze anos de pesquisa nesta temática nos permitiram construir um acervo sobre este que é um dos três capítulos mais bonitos do Brasil colonial – infelizmente, marginalizado em razão dos interesses do vencedor e colonizador luso. Lançamos as balizas para que São Luís e o Maranhão façam como o fizeram Rio Grande do Sul e Pernambuco com, respectivamente, as missões Jesuítico – guarani (1609 – 1750) e o Brasil Holandês (1624 – 1654). O quadricentenário é o momento ideal de começarmos a “pagar” a dívida histórica com o primeiro capítulo desta rica e abençoada terra, a final, o Maranhão e a sua capital são os legítimos guardiões do legado gaulês nesta parte norte brasileira. Ludovicenses, maranhenses, brasileiros e visitantes agradecem.

 

EXPOSIÇÃO França Equinocial: a história de um Brasil bonito ao nosso alcance.

O visitante poderá ver e apreciar imagens de personalidades protagonistas do evento francês no Maranhão, como o quadro de François de Razilly, lugar-tenente-General, primo do futuro cardeal de Richelieu, que pôs nome ao Forte (São Luís), que se estendeu a toda a Ilha; Nicolas de Harlay, Senhor de Sancy, também Lugar-tenente-General, financista e conselheiro do rei, custeou um terço da expedição ao Maranhão; Cardeal de Joyeuse, batizou Luís XIII e coroou Maria de Médicis, doou o dinheiro para a construção em pedra do primeiro convento capuchinho do Brasil, onde hoje se acha o atual convento Santo Antonio, na capital maranhense; Luís XIII, rei de França, dentre outros. Mapoteca: O primeiro mapa do Maranhão, feito a partir dos desenhos feitos e entregues pelos franceses aos portugueses; mapa Saint-Louis capitale de La France Equinoxiale – 1615, reconstituição da capital da França Equinocial, todo em francês; Mapa do Poitou; de Saint-Malo; mundi da época, mapa das descobertas, de Paris em 1575, etc. Várias transcrições de documentos relativos ao Maranhão francês, como a carta de Maria de Médicis a La Ravardiére, correspondência fundamental para a manutenção da paz e unidade e na colônia; Leis fundamentais decretadas na Ilha do Maranhão, primeiro conjunto de leis escrito nas três Américas; o depoimento dos prisioneiros franceses do combate de Guaxenduba; cartas trocadas entre La Ravardière e Jerônimo de Albuquerque, etc. O interessado também terá disponível vários banners e plotagens de dois e três metros, além de objetos, como uma réplica de arma de fogo do século XVII.

O evento contará com monitores, que orientarão os visitantes e poderão tirar possíveis dúvidas.

Não deixe de visitá-la!

 

Significado de França Equinocial

É uma curiosidade para muita gente o que efetivamente quer dizer a expressão França Equinocial, que são “os esforços da França em colonizar próximo à Linha do Equador, então chamada Linha Equinocial. O Maranhão foi a primeira grande tentativa, seguida das Guianas. Em ambos os casos o primeiro grande protagonista foi Daniel de la Touche, descobridor das Guianas (1604) e fundador da Nova França no Maranhão. Equinocial deriva de equinócio, palavra que nasceu de dois termos do latim: aequus (igual) e nox (noite). Quando ocorre o equinócio, o dia e a noite têm igual duração (de 12 horas). O equinócio acontece duas vezes ao ano. Em março e em setembro.

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